O que ver na velha medina de Fez

A história de Fez é tão antiga quanto a de Marrocos e por esta razão visitar esta cidade é uma experiência incrível. O ambiente que se sente ao percorrer a medina que começou a ser construída há mais de 1200 anos é impressionante. Vários séculos depois os artesãos continuam a bater o metal da mesma forma, o pão é feito com as mesma técnicas, os cheiros são idênticos, a movimentação dos habitantes e de burros de carga e de tantas outras formas de meio de transporte que circulam pelas ruas estreitas.

Fez é uma cidade histórica, a mais extensa e melhor conservada do mundo árabe-muçulmano. É uma verdadeira viagem no tempo. Tudo se manteve intacto ao longo dos séculos. No ano de 1981 foi considerada Património da Humanidade pela UNESCO.

Eu já tinha visitado Fez há mais de dez anos e foi maravilhoso regressar.

Medina antiga: Fez el-Bali

Quando percorremos as ruas da enorme medina de Fez pode ser um pouco difícil perceber que na realidade a medina é um conjunto de duas zonas diferentes. Não há separação óbvia que nos permita ver os limites, mas depois de conhecer um pouco da história de Fez talvez já se tenha um outro olhar.

Fez el-Bali foi fundada em 789 por um príncipe da dinastia árabe xiita Idríssida, Idriss II. Foi o seu pai Idriss I que teve a ideia de fundar uma nova capital, mas morreu entretanto e foi o seu filho que concretizou os seus planos. Os restos mortais do fundador de Fez encontram-se na Zaouia de Moulay Idriss, um santuário que os não muçulmanos não podem visitar, como aliás vários outros edifícios da cidade.

Nessa época a medina integrava dois bairros fortificados separados pelo rio. De um lado desse rio viviam vários milhares de famílias que tinham fugido da Andaluzia e do outro lado todos aqueles que tinham fugido de Kairouan (Tunísia).

Para perceber onde se encontravam estes bairros poderá ser interessante olhar para o mapa de Fez e localizar locais que guardam o nome desses tempos. Repare por exemplo na Mesquita Al-Andalus e na Mesquita Al Karaouine. Os nomes destes templos religiosos encontram-se nos antigos bairros Al-Andalus e Kairouan, respetivamente. Foi aqui que Fez começou.

Alguns anos mais tarde da fundação de Fez, no século XI, foi construída a muralha que integrou os dois bairros fortificados (Al-Andalus e Kairouan) e nos dois séculos seguintes a medina Fez el-Bali cresceu até ao tamanho que vemos hoje.

O que ver em Fez el-Bali

É em Fez el-Bali que se encontram os mais importantes locais de toda a medina. São milhares de ruelas para explorar e muita história para conhecer.

1 – Explorar os souks

A medina de Fez, e qualquer outra na verdade, é constituída por um emaranhado de ruas sinuosas e estreitas que se encontram delimitadas por uma muralha. À primeira vista as suas ruas parecem um autêntico caos mas existe alguma ordem na realidade. Na medina encontram-se vários bairros distintos, chamados de souks, sem aparente delimitação mas que se percebe bem a diferenciação pelo tipo de atividades que em cada um dos souks é praticada. Existe o souk onde se vende carne, outro peixe, perfumes, couro, metal, entre muitos outros.

Esta medina em particular é a mais antiga de Marrocos, e todas as atividades praticadas são mantidas mais ou menos intactas nos últimos séculos. Eu diria sem grandes dúvidas, que percorrer as ruas da medina e dos vários souks será a mais importante atividade a fazer em Fez.

Observar a vida dos habitantes hoje, tal como era há séculos atrás é inigualável.

Rua da medina
Rua da medina
Rua da medina
Rua da medina
Mulher a fazer pão na medina
Mulher a fazer pão na medina
Artesão a trabalhar
Artesão a trabalhar
Artesão a trabalhar
Artesão a trabalhar

2 – Tinturarias Chaouwara

Existem três tinturarias em Fez, sendo a Chaouwara a maior, a mais antiga e a mais famosa da cidade e mesmo do país. É o cartão postal que todos procuram, é imperdível.

Quando nos aproximamos desta tinturaria começamos a sentir um mau e muito forte odor que vai ficando mais intenso à medida que nos vamos aproximando. Na primeira vez que aqui estive, há dez anos atrás, foi até um pouco difícil permanecer algum tempo aqui, mas desta vez até me foi oferecido um ramo de hortelã para ir colocando no nariz e foi uma experiência muita mais suave. De qualquer forma não se deixem assustar com os comentários relativamente ao cheiro. É forte mas totalmente suportável.

Vale a pena observar durante algum tempo a tinturaria e perceber toda a dinâmica de trabalho, que pouco se deve ter alterado desde o século XI em que foi fundada.

Depois das peles serem retiradas dos animais (vacas, ovelhas, cabras e camelos) são mergulhadas num líquido branco (água misturada com urina de vaca, fezes de pombo, cal) para ficarem mais macias e prontas a serem trabalhadas. Posteriormente a este processo é que as peles são colocadas naqueles vasos de pedra enormes que parecem favos de mel.

No interior desses vasos encontra-se água com diferentes corantes. Os trabalhadores têm de levar a pele para o interior e mergulhá-la na água com corante de forma a que fique da cor pretendida. É esta operação que se consegue ver.

Quando as peles têm a cor pretendida, são secas ao sol e depois são trabalhadas pelos artesãos que podem ser facilmente encontrados nas ruas dos souks da medina.

O que ver na velha medina de Fez
Tinturarias Chaouwara
Tinturarias Chaouwara
Tinturarias Chaouwara

3 – Madraça Bou Attarine

Muito perto das tinturarias Chaouwara encontra-se a Madraça Bou Attarine. Foi fundada em 1310 pelo sultão Abuçaide Otomão II e deve o seu nome ao local onde se encontra. Attarine é o nome do souk, uma vez que é aqui se se vendem perfumes e produtos de beleza.

Este é um local pequeno mas com um trabalho deslumbrante na arte islâmica. Como vários outros locais da medina a porta principal (e todo o exterior) é discreta, pelo que atravessar a segunda porta, que conduz ao pátio é um bela surpresa. O pátio é lindissimo, possuindo um belo trabalho manual em estuque , mosaicos e caligrafia árabe.

Na parte superior virados para o pátio encontram-se os quartos que eram ocupados pelos estudantes. São pequenos e estão vazios, mas possibilitam belas perspetivas tanto para o interior da madraça como para a parte superior dos edifícios da medina, pelas janelas que dão luz à escuridão que reina nestes pequenos espaços.

Madraça Bou Attarine
Pormenor do pátio da Madraça Bou Attarine
Piso dos quartos - Madraça Bou Attarine
Piso dos quartos – Madraça Bou Attarine
Telhados verdes da medina
Telhados verdes da medina

4 – Madraça Bou Inania

A uma caminhada de 15 minutos da Madraça Bou Attarine encontra-se a Madraça Bou Inania, a mais espetacular escola corânica de Fez. Foi construída pelo sultão Abu Inan Faris entre os anos 1351 e 1357 e é a única madraça em Fez que tem um minarete. Além de escola existe aqui também uma enorme mesquita e não apenas um pequeno local destinado à oração, como é habitual existir nas madraças.

A delicadeza e pormenor de todo o trabalho nas paredes interiores é incrível. Não é possível a um não muçulmano fazer uma visita, dá apenas para “espreitar” desde a entrada. O portão é enorme e está totalmente aberto.

Madraça Bou Inania
Madraça Bou Inania

5 – Bab Bou Jeloud

A poucos metros da madraça Bou Inania encontra-se a Bab Bou Jeloud, muito provavelmente a porta mais conhecida de Fez. Esta porta é azul de um lado e verde do lado oposto, muito bonita e imponente de ambas as formas. A coloração azul refere-se à arte do azulejo típico de Fez e a verde é a cor sagrada do islão, estando por isso virada para a medina. Por esta cor ser sagrada é que os tetos dos edifícios estão quase todos pintados de verde, tal como esta porta.

Esta construção é já do início do século XX.

Medina “nova”: Fez el-Jdid

Com o domínio da dinastia berbere dos Merínidas, foi fundada uma nova cidade, um pouco a oeste da Medina mais antiga. Foi desta forma que nasceu em 1276 a medina mais nova de Fez, chamada de Fez el-Jdid. Por curiosidade acrescento que esta nova medina foi inspirada no planeamento de Marrakesh.

Apesar de terem nascido de origens distintas e em épocas diferentes, ambas as medinas ao longo dos anos souberam evoluir numa simbiose, que se desvaneceu ao longo dos anos. E por tudo isto visitar hoje em dia a medina de Fez é uma mistura verdadeiramente impressionante de influência andaluza, oriental e africana.

Nesta zona da medina recomendo percorrer igualmente os souks e também conhecer o palácio real e o bairro judeu (mellah).

Eu viajei a convite do Turismo de Marrocos, mas todos os meus comentários são independentes.



Dicas para viajar até Fez

(Se fizer as suas reservas através destes links, não paga mais nada por isso e eu ganho uma pequena comissão, o que é determinante para eu continuar a escrever sobre viagens. Obrigada!).

Como chegar:  Se for de Lisboa como eu, o melhor é apanhar um avião direto para Fez. Eu voei com a TAP, como faço quase sempre.

Como se deslocar: Na medina não entram carros, por isso a única forma de explorar é mesmo andar a pé. E ainda bem, porque esta é a melhor forma de conhecer um novo local. Para explorar os arredores da cidade, fora da medina, é melhor optar por um táxi. Se preferir carro vale sempre a pena comparar os preços e escolher o melhor negócio na Rentalcars.

Onde dormir: Recomendo ficar a dormir no riad La Maison Bleue Batha. É um espaço muito bem localizado, elegante, com quartos confortáveis, um staff super simpático e um ótimo pequeno-almoço.

Onde comer: Há muitos locais para comer na medina, vários vendores de carro e outros tantos restaurantes. Se puder, vá jantar ao Palais Faraj Suites & Spa. A comida marroquina tradicional é divina, muito bem confecionada e o espaço é lindissímo, é um antigo palácio. Não é barato, mas vale muito a pena.

Tours: Uma das questões que muitas vezes me colocam é sobre a necessidade ou não de um tour na medina. Eu já estive várias vezes em algumas cidades marroquinas e nunca contratei guia nenhum, nem para conhecer a medina nem para me levar a algum local em particular. Nesta viagem em particular fui acompanhada por um guia e diria que vale a pena. Penso que devemos ser sempre reservar tempo para andarmos sozinhos, mas é sem dúvida uma mais valia percorrermos as ruas com alguém que conhece bem o local e que nos pode dar boas dicas.

Deixe um comentário