A rota do minério no Guadiana

Quando olhamos actualmente para a calmaria do rio Guadiana, talvez seja difícil imaginar que este já foi uma das principais rotas de navegação da zona sul de toda a Península Ibérica. Agora são barcos de recreio de portugueses, espanhóis e de muitos do norte da Europa que circulam por aqui mas há um tempo atrás eram enormes barcos carregados de materiais como o minério que andavam rio acima e rio abaixo.

Há mesmo muitas razões que tornam super interessante esta região do vale do Guadiana e seguramente que a riqueza histórica é uma delas. Vamos então descobrir de que forma a exploração do minério ditou a evolução destas terras. Alcoutim, Mértola, Minas de São Domingos e as povoações espanholas tais como Sanlucar do Guadiana, eterna companheira de Alcoutim.


HISTÓRIA

Romanos

Como sabemos os romanos dominaram uma boa parte do mundo, incluindo a região do Algarve e Alentejo, onde a região do vale do Guadiana se encontra inserida. Durante esse período em que os romanos eram senhores destas terras, fizeram prospecção mineral tendo em vista encontrar locais de exploração de minério.

Depois de alguma pesquisa do que já tinha sido feito e trabalho no terreno os romanos perceberam que haviam vários locais um pouco por todo Portugal onde era possível fazer exploração de minério. Na zona sul construíram e exploraram minas nos locais que hoje conhecemos como Aljustrel e Mina de São Domingos. É interessante perceber porquê estes dois locais do Alentejo “profundo” e não outros locais quaisquer.

Há um pormenor que já era conhecido antes até dos romanos que era a existência da Faixa Piritosa Ibérica na zona sul da Península Ibérica. Esta é uma região em forma de arco, com cerca de 300 quilómetros e que vai sensivelmente entre a zona da Marateca – Águas de Moura e Sevilha e onde se encontra uma das maiores concentrações a nível mundial de sulfuretos maciços polimetálicos. Ou seja, toda esta zona é rica em geossítios e lugares mineiros e é mesmo aqui que se encontram inseridas as minas de Aljustrel e São Domingos.

Os romanos sabiam da existência desta zona, e retiraram do solo ouro, prata e cobre que estava numa zona mais superficial (a poucos metros de profundidade), nos chamados Chapéus de Ferro.

Ingleses

Muitos anos mais tarde, em meados do século XIX, os ingleses necessitavam de cobre e enxofre para o desenvolvimento da sua indústria química. E quando ouviram falar das minas do Alentejo enviaram um mineiro de nome Nicolau Biava para fazer a prospecção da região a fim de averiguar se valia a pena o investimento ou não. Ao fim de cerca de seis anos de trabalhos e de ter sido registada a mina de Caveira, Nicolau foi considerado descobridor legal da Mina de São Domingos e foi constituída sociedade chamada La Sabina (sendo um dos sócios o inglês que enviou Nicolau) como a sua proprietária.

Esta sociedade arrendou a exploração da Mina de São Domingos à empresa Mason & Barry, obrigando-a a pagar por cada tonelada de minério vendido e exportado para várias cidades inglesas. E foi assim até 1882. Inicialmente todo o material que era retirado da Mina de São Domingos era encaminhado para o Pomarão, o porto do rio Guadiana, através da utilização de animais e carros. Mais tarde, no ano de 1862, esse transporte entre a mina e o porto começou a ser feito por comboio, com locomotivas trazidas de Inglaterra.

A exportação de minério ao longo dos anos foi sendo cada vez maior (em grande parte pela evolução do transporte até ao rio) até que por volta do ano de 1882, a produção foi diminuindo gradualmente devido à crescente concorrência que foi aparecendo no mercado e também devido à eclosão da I Guerra Mundial. Nos anos 30 ainda houve um novo crescimento da produção


ONDE IR

1 – Rio Guadiana

A melhor maneira para começar a explorar toda esta rota do minério do Guadiana é mesmo percorrendo o rio. Pode apanhar o barco em Alcoutim e passear entre Vila Real de Santo António e Mértola, para percorrer o Guadiana tal como os romanos e mais tarde os ingleses fizeram. Em alternativa também é possível apanhar um barco em Mértola, mas penso (pelo que pesquisei) que apenas vai até Alcoutim e não até Vila Real de Santo António.

O passeio que eu fiz partiu de Alcoutim e foi apenas até à zona do rio Vascão, que faz fronteira entre o Algarve e o Alentejo, mas fiquei com imensa vontade de percorrer toda a parte navegável do rio, desde Vila real de Santo António até Mértola.

2 – Pomarão

O Pomarão é uma pequena aldeia que se encontra junto ao rio Guadiana, que já teve uma importância enorme. Na altura em que a Mason & Barry explorava a Mina de São Domingos todo o minério era encaminhado para aqui. Primeiro com a força animal, mais tarde de comboio. Todo o minério proveniente da mina era descarregado aqui, embarcava no cais para os enormes barcos que andavam pelo Guadiana rio acima e rio abaixo e que partiam para Inglaterra.

Eu não consegui encontrar muitos mais vestígios deste passado no Pomarão, mas só pelo cais já vale mesmo muito a pena.

A rota do minério no Guadiana
Antigo cais do Pomarão

3 – Mina de São Domingos

A Mina de São Domingos é o coração de toda esta rota, uma vez que foi nesta aldeia alentejana que em vários períodos da história ocorreu a exploração do seu depósito. Mas o período da época moderna, que durou um pouco mais de um século, foi o mais relevante para a história deste local.

A Mason & Barry chegou a empregar mais de 1000 trabalhadores e foi a maior exploração mineira até à década de 30, tendo sido responsável por um enorme desenvolvimento local. Aqui foi construída umas das primeiras linhas férreas de Portugal, a 1ª central elétrica do país e várias infraestruturas para os trabalhadores tais como o cineteatro, hospital, oficinas, igreja, campo de jogos Cross Brown, clube recreativo ou várias habitações.

As casas são ainda hoje habitadas, por antigos trabalhadores da mina e pelos seus familiares, apesar de muitos terem saído da terra quando a exploração terminou. Pelo que sei muitos deles terão ido procurar trabalho no Barreiro, na Companhia União Fabril (CUF) e por lá ficaram. É possível conhecer como era o interior dessas casas porque inserido neste bairro operário em formato de banda contínua está a Casa do Mineiro que todos podem visitar.

Ao contrário das casinhas que estão muito bem conservadas, a mina está abandonada e um pouco decadente, mas isso não lhe retira um milímetro de interesse. Na minha opinião este é um local imperdível, pelo seu charme e pelo enorme interesse cultural e histórico que representa.

4 – Jardim e bairro dos ingleses

A certa altura da exploração da mina, por volta de 1868, começou a ser construído o bairro inglês, dando-se uma separação social enorme entre os trabalhadores que viviam em casinhas exíguas e sem comodidades (quase sempre sem janelas) e os quadros superiores que ocupavam espaçosas habitações com electricidade, sanitários e água canalizada. Muito provavelmente esta diferenciação de condições de vida foi uma das condições que levaram à existência de inúmeros conflitos por parte dos trabalhadores.

Para a direcção da mina foi construído um palácio que há uns anos atrás (2006) sofreu uma profunda reestruturação e ampliação, sendo desde então um elegante hotel. Além de super elegante e confortável acho que pela sua história é interessante passar pelo menos uma noite neste hotel. Eu adorei acordar num espaço como este e tomar o pequeno-almoço numa varanda com vista para um jardim onde ainda “ontem” passearam damas inglesas. Independentemente da opinião que tenhamos de toda esta vivência, é incontornável que faz parte da história deste local e que é um local com muita relevância a nível da rota do minério do Guadiana.

Perto deste hotel palácio encontra-se também um campo de ténis e um coreto onde ao domingo, tocava a banda filarmónica com trabalhadores e familiares que aprendiam música. A poucos metros existe uma das duas albufeiras que foram criadas pelos ingleses que foram projectadas de forma a ser aproveitada ao máximo a escorrência de origem pluvial. Naquele tempo aos domingos era aqui que a equipa inglesa ia passear e fazer picnics. Hoje numa dessas albufeiras, chamada Tapada Grande, que nasceu a praia fluvial da Mina de São Domingos.

A rota do minério no Guadiana
Praia fluvial da Mina de São Domingos

Um muito obrigada ao Nuno Roxo, pelo seu tempo e disponibilidade. Toda a sua informação e acompanhamento na mina foi fundamental para eu ter uma visão muito mais ampla deste tema. Um muito obrigada ao Alentejo Star Hotel, gostei mesmo muito de toda a experiência.


Informação prática

Como chegar e se deslocar

Para percorrer os locais ligados à rota do minério do rio Guadiana o melhor a fazer é mesmo utilizar carro. Penso existir autocarro mais ou menos regular entre Mértola e a Mina de São Domingos, mas para o Pomarão e Alcoutim não encontrei.

Onde dormir

Para descobrir a região recomendo ficar um dia na vila no Hotel D´Alcoutim, que se localiza a uma caminhada de 13 minutos da zona mais central de Alcoutim, junto ao rio. O Hotel é super elegante, o staff é fantástico (incluindo o dono) e tem uma piscina no exterior com imenso espaço à sua volta. O pequeno almoço é agora servido à mesa em intervalos de 30 minutos previamente marcados para manter a segurança. De seguida recomendo ficar pelo menos outro dia no Alentejo Star Hotel, antigo palácio da direcção da equipa que explorava a Mina de São Domingos. Além do enorme interesse histórico, é um hotel muito elegante e tranquilo, com uma piscina bem gira.

Onde comer

Em Alcoutim recomendo o Camané na praça da República e o Sítio do Costume muito próximo do Cais. Quer um quer outro deverá comer razoavelmente bem. Recomendo reservar mesa no terraço do Sítio do Costume com indicação já do que pretende comer, para evitar eventuais longas esperas. Na Mina de São Domingos sem sombra de dúvidas deve ir ao Restaurante São Domingos, a poucos metros do Alentejo Star Hotel. Se tiver sorte como eu tive, ainda poderá assistir a cante alentejano por alguns locais mais velhos que se juntam à volta de uma mesa.

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Sobre a Kate
É uma ex-consultora, blogger de viagens a tempo inteiro, viajante há 20 anos e mãe da Maria há 5. Viaja na maior parte das vezes em família, com a filha desde que era uma bebé de 2 meses e os 3 juntos já fizeram mais de 30 viagens pelo mundo.
Fundou o Wandering Life, organiza @instameets.pt, fundou e é vice-presidente da ABVP – Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, tem ebooks onde ajuda outras famílias a viajar, é fundadora da comunidade Famílias de mochila às costas e da rubrica Conversas em família.

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