Colares

Colares é uma freguesia de Sintra, localizada a aproximadamente 40 minutos a nordeste de Lisboa. O percurso desde Sintra é um deslumbre, com a serra de pano de fundo e os campos cultivados com vinha. Vá com tempo para poder parar muitas vezes, acredite que o vai querer fazer. No lado esquerdo da estrada somos acompanhados durante algum tempo pelo imponente Palácio de Monserrate, uma obra-prima do romantismo português.

Almoçageme e a Praia da Adraga

Já em Colares destaco a aldeia de Almoçageme, uma povoação simpática e pacata da serra de Sintra. Aqui as casas são pequenas e já cheiram a mar. Nas ruas os produtores locais vendem fruta e legumes e os habitantes ainda se juntam no café para por a conversa em dia. Quase nos esquecemos que estamos tão perto da já cosmopolita cidade de Lisboa.

Quando a povoação termina, a estrada sinuosa começa a descer, terminando na belíssima praia da Adraga, que é uma das minhas preferidas em Portugal. Não venho aqui no verão, altura em que procuro as águas mais quentes do sul, mas sim no inverno. Há um certo misticismo que sempre me fascinou, talvez seja da bruma, da solidão ou do facto de parecer esculpida na serra.

Praia da Adraga, Colares
Praia da Adraga

É neste contexto de serra e fortes ventos marítimos que se encontram as vinhas chão de areia (na região das dunas), que tornam inconfundível o vinho aqui produzido. Devido às condições climatéricas as vinhas rasteiras, têm de ser protegidas com canas secas, o que forma uma paisagem bastante singular.

Vinha chão de areia

Existe referência à existência de vinha em Colares já no longínquo ano de 1154. Desde então o cultivo foi sempre sendo cada vez maior e de igual forma a sua fama e o seu consumo. Na época dos Descobrimentos Portugueses as naus transportavam barris de vinho de Colares até à Índia, para consumo na longa travessia e/ou para serem comercializados no destino final da viagem.

Mas houve uma grande praga de filoxera que mudou todo o panorama da vinha em Portugal (e também na Europa), tendo existido apenas uma exceção. Foi a vinha de Colares, de chão de areia. O inseto não conseguiu penetrar neste chão, o que talvez explique o facto do vinho de Colares ser tão duro. É um sobrevivente.

Em 1908 foi declarado como 1º vinho de Mesa Nacional (e região de Denominação de Origem Controlada – DOC), mas com o passar dos anos a área de vinha foi reduzindo, até chegar aos 20 hectares que existem hoje. Além do facto de se produzir pouco vinho ele ainda tem de estar vários meses em estágio (18 no caso dos tintos), o que leva a que a sua comercialização seja muito limitada.

É um vinho único e especial que merece mesmo muito ser conhecido, pela sua singularidade e identidade. Eu não conhecia e por isso decidi visitar a Adega Viúva Gomes para iniciar a exploração da Rota de Vinhos de Lisboa. Todas as quartas feiras a adega abre as portas a todos que queiram conhecer este museu vivo.

Adega Viúva Gomes

Mesmo no centro de Almoçageme encontramos a adega Viúva Gomes, uma das mais antigas de Colares. Fica mesmo no largo central da aldeia, é muito fácil ver. A fachada é muito bonita, com azulejos verdes, e indica-nos que o armazém de vinhos Viúva Gomes tem já uma história que remonta ao ano de 1808.

Fachada da Adega Viúva Gomes
Fachada da Adega Viúva Gomes

Tudo começou com a família Gomes da Silva, proveniente da zona de Loures, que tinha uma enorme extensão de vinha, e decidiu construir uma adega. Nesta altura foi a senhora Gomes que entretanto ficou viúva que tomou as rédeas à casa, tendo então surgido o nome de Viúva Gomes para a adega.

Mais tarde a adega mudou de donos, tendo já pertencido à Companhia de Vinhos e Azeites de Portugal (através do dono da José Maria da Fonseca) e à Victor Guedes & Companhia, até que foi adquirida em 1988 pela família Baeta. Estes já estavam estabelecidos em Sintra, no negócio alimentar desde 1898.

Conheci apenas o enólogo e filho do dono, Diogo Baeta e senti que há uma ligação emocional muito grande por este vinho e também pela adega. É mais do que um vinho, é um legado cultural e histórico de uma zona de vinha muito pequena e com características que o torna diferente e único.

Essa herança é-nos transmitida logo quando entramos no edifício, diretamente para a loja, um belíssimo espaço totalmente em madeira. Aqui ainda há portadas de madeira de vidro, a fazer lembrar a casa da avó.

Entrada/loja da Adega Viúva Gomes
Entrada/loja da Adega Viúva Gomes

No piso inferior, o ambiente continua na mesma linha, existindo muitas estruturas antigas em madeira. Há vários quadros nas paredes onde é possível ver os rótulos antigos das garrafas e muitas imagens de todo o trabalho inerente à vinha. Destaco também o pequeno laboratório e a coleção de garrafas antigas, algumas das quais já quase a comemorar um século… Autênticas relíquias.

Adega Viúva Gomes
Adega Viúva Gomes

 

Rótulos antigos dos vinhos da Viúva Gomes
Rótulos antigos dos vinhos da Viúva Gomes

 

Os vinhos

Um vinho para ser considerado DOC Colares tem de ser proveniente de chão de areia, a plantação da vinha tem de respeitar as práticas tradicionais, tem de ter pelo menos 80% de casta Ramisco no caso dos tintos e Malvasia no caso dos brancos e tem de ter um estágio obrigatório de vários meses.

A Adega Viúva Gomes tem dois vinhos DOC, que eu provei e que rapidamente percebi que são diferentes do que existe no resto de Portugal. É um sabor muito forte e que nos surprende.

Pipa com vinho de casta Malvasia (Adega Viúva Gomes)
Pipa com vinho de casta Malvasia (Adega Viúva Gomes)

Mas é claro que nem todos os vinhos têm de ser DOC. Há espaço para cada adega/enólogo criar e “inventar” vinhos com outras condições, que podem e muitas vezes são igualmente fantásticos (ou até mais). Na Adega Viúva Gomes há também o Patrão Diogo, em homenagem ao bisavô do Diogo, que são feitos com outras castas tradicionais de Lisboa e já em chão rijo. São vinhos fantásticos, mas não cumprem os requisitos de DOC, e por isso não têm este selo.

 

Na minha opinião ir a Colares é um belissímo passeio, a região é de facto muito bonita, com um enquadramento paisagístico formidável. Além de todos os locais que pode conhecer, como a praia da Adraga, existe ainda a perspetiva do enoturismo.

As uvas crescem na areia, algumas muito próximas do mar, e por isso o vinho que produzem é único em Portugal.

 



Guia do viajante – Portugal

Quando ir: Entre junho e setembro para temperaturas mais amenas.

Documentos: Para entrar em Portugal, pode precisar de um passaporte e/ou visto, dependendo do seu país em que vive. Cidadãos da Comunidade Europeia não precisam de visto para entrar em Portugal. Os passaportes devem ser válidos até 6 meses (dependendo da sua nacionalidade) e são exigidos para todos, exceto pelos nacionais da União Européia e nacionais da Islândia, Liechtenstein, Malta, Noruega e Suíça, portadores de carteiras de identidade nacionais válidas. Britânicos, australianos, canadenses, americanos e japoneses precisam de um passaporte válido.

Embora não seja obrigatório ter um bilhete de retorno, é aconselhável ter um, porque, se não o fizer, poderá ter de provar meios suficientes de apoio financeiro para devolver.

Moeda: A moeda local é o euro.

Fuso horário: GMT.

Idioma: Português.



Guia do viajante – Adega Viúva Gomes

Quando ir: Todas as quartas-feiras no Open Day, às 11h e às 15h e nos primeiros sábados do mês às 16h.

Como marcar: Enviar mail a pedir reserva para info@adegaviuvagomes.com.

Localização: Largo Comendador Gomes da Silva, 2- 3, Almoçageme (Colares)

Mais informações: http://www.adegaviuvagomes.com/