As ruínas do Carmo

Quem visita Lisboa vai ver obrigatoriamente as ruínas do Carmo, uma vez que se localizam no centro da cidade. O que resta da Igreja do Carmo encontra-se no alto de uma colina (tendo por isso posição de destaque), não muito longe da Praça D. Pedro IV, mais conhecida por Rossio.

Se aqui estivermos, o nosso olhar vai ser inevitalmente atraído pelo Carmo de um lado e do Castelo do outro. São dois cartões postais da cidade.

Castelo de São Jorge, Lisboa, Portugal
Castelo de São Jorge

Recomendo que suba pela Rua do Carmo, logo seguida da Rua Garrett e finalmente a do Sacramento. Eu moro em Lisboa e vou passear repetidas vezes por esta zona, adoro. Quando sair, se quiser novamente ir para o Rossio utilize o elevador de Santa Justa, igualmente um marco incontornável de Lisboa.

Largo do Carmo, Lisboa, Portugal
Largo do Carmo

Na minha opinião, se visitar a capital portuguesa deve ir ao Carmo por 10 razões.

Não se esqueça de levar o Lisboa Passport e carimbar na loja, que fica no final da visita! Desde que tenho este passaporte que decidi visitar uma vez por mês uma das atrações de Lisboa e escrever sobre elas. As ruínas do Carmo foram o 1º carimbo!

 

1 – Ligação a D. Nuno Álvares Pereira

Existiu um rei em Portugal que não tinha filhos, pelo que após a sua morte Nuno Álvares Pereira, um reconhecido cavaleiro português, apoiou o seu filho ilegítimo para subir ao trono. A alternativa era o marido castelhano da filha do rei, o que implicava Portugal perder a sua indepedência.

Foi neste contexto que um cavaleiro militar português, Nuno Álvares Pereira, teve um papel extremamente importante. Ele eliminou a ameaça castelhana, o que fez com que o filho ilegítimo tivesse acabado por se tornar rei de Portugal. Por este feito foi nomeado Condestável do Reino, um importante cargo militar nesta altura.

Hábito envergado por D. Nuno, museu GNR, Lisboa, Portugal
Hábito envergado por D. Nuno, museu GNR

 

2 – Rivalidade com o castelo

A iniciativa de construção do Convento tinha como objetivo rivalizar com o rei. O Castelo, símbolo do poder real, encontra-se do lado oposto ao vale do Rossio. Através da construção de um grande convento (72 metros de comprimento e altura máxima de 20 metros) o Condestável pretendia mostrar o seu poder politico. Parecia quase querer dizer que o seu poder estava à altura (tinha a mesma importância) que tinha o Rei.

O Convento demonstra também a Fé do Condestável, o que também se veio a comprovar quando se juntou aos frades Carmelitas (que ocupavam o convento), tornando-se Frei Nuno de Santa Maria. Foi no Convento que passou os seus ultimos anos de vida e que foi sepultado.

 

3 – Desafio de engenharia para a época

O Condestável escolheu a colina que viria a ser designada de Carmo, pela localização estratégica e também porque fazia lembrar o monte Carmelo, situado na Palestina. Mas a construção no alto de uma colina implicou a existência de alguns problemas de construção.

O terreno era arenoso e a escarpa extremamente instável, o que levou a que o edifício tivesse ruído duas vezes. Apenas quando Nuno Álvares Pereira contratou dois mestres de obras judeus é que foi descoberta uma forma de lidar com a instabilidade da colina e de levar a obra até ao fim.

Ao entrar na Igreja do Carmo pelo portal principal, logo após a bilheteira, vai ter de descer um lance de escadas. Isto foi uma solução prática para resolver o problema de diferença de cota.

 

4 – Naves da igreja descobertas

No ano de 1755 ocorreu um terramoto seguido de maremoto (e de um incêndio), que foi responsável pela destruição de boa parte de Lisboa. Até surgiu uma frase que é muito referida pelos portugueses, “Caiu o Carmo e a Trindade”, como referência a alguma coisa catastrófica.

A maioria das dependências do convento não sofreu grandes danos, mas o teto das naves da igreja acabou por ruir, destruindo quase todo o que se encontrava no interior do templo. Morreram muitas pessoas, estava a ser celebrada uma missa.

Depois do terramoto a comunidade carmelita do Carmo decaiu e a igreja ficou abandonada (por falta de dinheiro), o que lhe conferiu uma aura de melancolia e reflexão, muito valorizadas na época. Os intelectuais portugueses da época deambulavam pelo Carmo para longos atos de reflexão e troca de ideias. As ruínas do Carmo acabaram por se tornar uma autêntica fonte de inspiração.

Interior da Igreja do Carmo, Lisboa, Portugal
Interior da Igreja do Carmo

 

5 – Janela do Mosteiro dos Jerónimos

Quando entrar na Igreja do Carmo vai imediatamente observar uma janela mainelada, com uma separação central e muito trabalhada a toda a volta. Esta peça encontrava-se no Mosteiro dos Jerónimos, um dos mais importantes monumentos da cidade de Lisboa.

Janela proveniente do Mosteiro dos Jerónimos, no interior da Igreja do Carmo, Lisboa, Portugal
Janela proveniente do Mosteiro dos Jerónimos, no interior da Igreja do Carmo

 

7 – Paredes que parecem medievais são as mais recentes

Muito mais recentemente, já nos anos 40 a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais realizou um vasto conjunto de obras no interior da Igreja do Carmo. Este é um organismo estatal português.

Foi nesta época que foram colocados nas paredes brasões e lápides, e que foram levantadas as paredes em tijolo de Alcobaça. Quando estiver a descer as escadas da Igreja vai ver estas paredes à sua frente, no local onde vai entrar para o museu. É onde se encontra inserida a janela que já pertenceu ao Mosteiro dos Jerónimos.

O aspeto que os tijolos conferem à parede faz crer que é uma estrutura antiga, quando na verdade é das mais recentes.

 

8 – Primeiro museu de arte e arqueologia do país

Já no século XIX Joaquim Possidónio da Silva, arquiteto da Família Real portuguesa, decidiu criar o primeiro museu de arte e arqueologia de Portugal. Ele viajou pelo país recolhendo peças que se encontravam em edifícios abandonados. Nesta época o património encontrava-se ameaçado pela extinção das ordens religiosas, pelas invasões francesas e por algumas tensões existentes em Portugal.

Possidónio levou para o Carmo imensas peças que recolheu durante vários anos nestas viagens que realizava pelo país. foi ele também que criou a Associação dos Arquitetos Civis Portugueses. Ainda hoje é no Carmo que se localiza a sede da mais moderna Associação dos Arqueólogos Portugueses.

 

9 – Convento mesmo ao lado

O Convento do Carmo encontra-se imediatamente ao lado das ruínas da Igreja. Passa muito despercebido, uma vez que a porta original desapareceu e por ser atualmente ocupado pela Guarda Nacional Republicana (GNR) , uma das organizações policiais portuguesas. Se visitar o Museu da GNR é possível conhecer um pouco do que já foram as instalações ocupados pelos Carmelitas. Vai puder passar pela escadaria de acesso à antiga Capela interina do Convento e observar alguns fragmentos do antigo portal ou ainda o hábito da Ordem do Carmo de D. Nuno.

Pedra proveniente do antigo Convento do Carmo, museu GNR, Lisboa, Portugal
Pedra proveniente do antigo Convento do Carmo, museu GNR

 

10 – Local fantástico para beber um copo

Mesmo junto às ruínas, já virado para o Rossio, encontra-se uma fantástica esplanada. São 1500 m2 de área, com uma vista fantástica para o Castelo de São Jorge, para o Elevador de Santa Justa e para as águas furtadas das casas da baixa pombalina.

Esplanada junto às ruínas, Lisboa, Portugal
Esplanada junto às ruínas

Na minha opinião, sentar aqui ao final do dia (quando o sol confere uma luz maravilhosa a Lisboa) com um gin na mão e as ruínas do Carmo nas costas é um programa absolutamente imperdível.

E tire muitas fotografias. Esta é a ruína mais cenográfica de Lisboa.­­

Carimbo #1 do meu Lisboa Passport! Desafio cumprido 😉

Lisboa Passport com o carimbo da Igreja do Carmo, Lisboa, Portugal
Lisboa Passport com o carimbo da Igreja do Carmo

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