O azulejo

O azulejo é uma peça de cerâmica utilizada como elemento decorativo e arquitetónico em Portugal. É uma marca da cultura portuguesa, sendo já utilizado há 500 anos.

Num passeio por terras portuguesas basta entrar numa igreja ou capela ou percorrer as povoações e observar as fachadas de algumas casas e rapidamente vemos vários exemplos de azulejo. Em Lisboa por exemplo, na zona de Alfama existem várias casas (mais antigas) com azulejos na sua fachada. As habitações mais recentes perderam um pouco esta tradição, mas mais recentemente alguns hoteis e hosteis já começam a reinventar a utilização deste elemento decorativo tipicamente português.

Se utilizar o metropololitano de Lisboa ou se for ao Oceanário, vai também conhecer exemplares recentes da arte da azulejaria.

Para conhecer a história do azulejo e perceber como evoluiu ao longo do tempo, o local perfeito é o Museu Nacional do Azulejo, que fica muito perto do centro da capital portuguesa, na zona de Xabregas.

Um outro aspeto extremamente interessante é que a exposição do Museu encontra-se instalada no que já foi um convento, com uma notável qualidade arquitetónica e decorativa.

Vou então dar-lhe 10 factos interessantes sobre este espaço e sobre a coleção de azulejaria que provavelmente o levarão a visitar este Museu e a conhecer melhor o que é um dos cartões de apresentação da cidade de Lisboa.

Eu visitei o Museu Nacional do Azulejo e fui relembrar toda a história desta peça de cerâmica e revisitar a igreja. Foi o meu 3º carimbo no Lisboa Passport!

1 – O nome do azulejo tem origem árabe

A palavra azulejo tem origem no termo árabe azzelij ou zuleycha que significa “pequena pedra polida”. É uma peça cerâmica que normalmente é quadrada e em que uma das suas faces é vidrada.

2 – Os primeiros azulejos utilizados em Portugal vieram de Sevilha

Quando os árabes chegaram à Península Ibérica trouxeram a arte do azulejo consigo. Este povo ornamentava as paredes dos seus palácios de forma elaborada, como podemos ver em vários exemplares que chegaram até aos nossos dias. O desenho normalmente e laçarias e encadeados geométricos.

O Rei português D. Manuel I contactou diretamente com as oficinas de produção de Sevilha, tendo realizado uma encomenda para o Palácio da Vila de Sintra. Algum tempo depois desta grande encomenda foi realizada uma outra pelo V Duque de Bragança para o seu Palácio de Vila Viçosa, mas desta vez às oficinas da Antuérpia. Estes seriam os primeiros azulejos a entrar em Portugal concebidos na técnica da faiança, com características diferentes dos concebidos em Sevilha, principalmente no que diz respeito à precisão dos desenhos.

Azulejos provenientes de Sevilha, Museu Nacional do Azulejo
Azulejos provenientes de Sevilha

3 – As primeiras olarias de azulejo em Lisboa utilizavam uma técnica italiana

Cerca de setenta anos após a encomenda de azulejos para o Palácio da Vila de Sintra, começaram a surgir as primeiras olarias em Portugal, em especial em Lisboa. Os artesãos tiveram influência da arte italiana da faiança ou majólica (desenvolvida depois pelos artesãos de Antuérpia) mas não tinham ainda a sua destreza e os seus anos de prática, por isso os desenhos criados nos painéis eram menos elaborados.

Graças a esta nova técnica da fainça a arte de fazer azulejos foi simplificada, tendo passado a ser muito mais rápida. Passou a ser possível pintar diretamente sobre o azulejo liso, sem que as cores se misturassem durante a cozedura, como acontecia até então.

As encomendas de painéis de azulejos eram realizadas por alguns nobres e pela Igreja, que era quem possuía a maioria da riqueza existente na época. Diversos templos religiosos, solares, conventos e jardins foram então decorados com painéis de azulejos de cor azul cobalto, amarelo, verde e manganês sobre branco.

De acordo com o local onde eram colocados os azulejos podiam existir motivos notando-se uma grande evolução dos motivos decorativos utilizados pelos árabes. Podia ser retratada uma campanha militar, uma cena religiosa, histórica ou de caça ou algo relacionado com o quotidiano. Basicamente, o painel era feito de acordo com as indicações de quem realizava a encomenda.

Painel de Nossa Senhoa da Vida (de Marçal dos Matos), Museu Nacional do Azulejo
Painel de Nossa Senhoa da Vida (de Marçal dos Matos)
O maior padrão do mundo (144 azulejos formam um padrão de desenho) (Museu Nacional do Azulejo)
O maior padrão do mundo (144 azulejos formam um padrão de desenho)

4 – Os azulejos portugueses começam a ser pintados por artistas especializados

Ao longo dos anos os artesãos que faziam os azulejos foram-se aperfeiçoando e especializando, o que fez com que a qualidade da produção e execução fosse maior. Por outro lado, Portugal tinha saído de uma situação de conflito com a Espanha e como consequência reatou relações com a Holanda onde se realizavam magníficos azulejos, muito mais elaborados do que em Portugal.

Neste contexto, surge no século XVIII o que é designado como Ciclo dos Mestres, o período áureo da azulejaria portuguesa, em que existiam vários artistas que já pintavam em tela que passam também a criar belissimos painéis de azulejos, tais como António Pereira ou Manuel dos Santos. Os pintores de azulejo assumiram o estatuto de artistas e passaram a assinar os painéis que executavam, deixando os artesãos de ser responsáveis por todo o processo.

É interessante pensar que quando um destes artistas pintava os azulejos não via de forma imediata como ficava a sua obra, uma vez que só era possível perceber como ficava após a cozedura a altas temperaturas. Não consigo imaginar a genialidade que seria necessaria para utilizar apenas uma cor que permitia criar a sensação de perspetiva e não conseguir ver de imediatado a evolução da obra… Impressionante.

Por esta altura utilizava-se o azul cobalto sobre a cor branca, por influência holandesa e das porcelanas chinesas, deixando para trás a policromia utilizada até então.

Painel (23 metros) de azulejos onde vemos Lisboa antes do terramoto de 1755 (Museu Nacional do Azulejo)
Painel (23 metros) de azulejos onde vemos Lisboa antes do terramoto de 1755
Painel (23 metros) de azulejos onde vemos Lisboa antes do terramoto de 1755 (Museu Nacional do Azulejo)
Painel (23 metros) de azulejos onde vemos Lisboa antes do terramoto de 1755

5 – Após o terramoto de 1755 foi preciso reconstruir Lisboa

Portugal estava em pleno período áureo de elaboração de azulejos quando ocorreu um terramoto desvastador, que destruiu quase toda a cidade de Lisboa. Foi então necessário reconstruir inúmeros espaços e a arte do azulejo foi bastante utilizada. Mas era uma época difícil em que o estado tinha pouco dinheiro e por isso a arte da azulejaria adaptou-se, como sempre, às especificidades portuguesas. E isto é algo totalmente único no mundo.

Não havia tempo nem dinheiro para pagar a artistas para executar painéis elaborados, tendo-se então voltado a fazer motivos simples, as padronagens, que não implicassem um elevado grau de aperfeiçoamento por parte dos artesãos. Na época a figura de estado mais influente era o Marquês de Pombal, que deu origem à designação de azulejos pombalinos.

Painel com padronagem pombalina (Museu Nacional do Azulejo)
Painel com padronagem pombalina

O facto de os azulejos se terem tornado mais acessíveis permitiu que também a burgesia pudesse tê-los nas quintas e palácios.

História do chapeleiro António Joaquim Carneiro - Parte 1 (Museu Nacional do Azulejo)
História do chapeleiro António Joaquim Carneiro – Parte 1
História do chapeleiro António Joaquim Carneiro - Parte 4 (Museu Nacional do Azulejo)
História do chapeleiro António Joaquim Carneiro – Parte 4

 

6 – Os azulejos passaram a ser utilizados nas fachadas e vários outros locais, até aos dias de hoje

A partir do século XIX começaram a ser utilizados azulejos nas fachadas dos edifícios, e não só nos palácios e igrejas. Esta arte ganhou outra projecção o que levou à criação de novas fábricas em Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro.

Mais recentemente começou a ser também aplicado azulejo nas estações de comboio e metropolitano. Vários artistas integraram também o azulejo nas suas obras de arte, tal como fez Rafael Bordalo Pinheiro, Raul Lino, Jorge Barradas, Maria Keil, Cargaleiro, Fernanda Fragateiro ou Júlio Pomar.

Azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro (Museu Nacional do Azulejo)
Azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro
Azulejos do Oceanário de Lisboa (Museu Nacional do Azulejo)
Azulejos do Oceanário de Lisboa

Os portugueses têm conseguido inovar e adaptar esta peça de cerâmica aos gostos e necessidades dos portugueses. Por isso é que utilizada há 500 anos, sem interrupções…

7 – O Convento da Madre Deus foi mandado construir por uma rainha

Uma parte do Museu Nacional do Azulejo ocupa as instalações que já foram o Convento da Madre de Deus ou Real Mosteiro de Xabregas. O convento foi fundado em 1509 por iniciativa da rainha D. Leonor no que era antes uma quinta de Xabregas.

A rainha ficou viúva e decidiu recolher-se ao Convento, adoptando um modo de vida idêntico a tantas outras freiras da Ordem de Santa Clara (ou Clarissas) que lá existiam. A rainha possuía uma enorme riqueza e quando se recolheu ao convento decidiu fazer uma doação para obras religiosas e aos mais pobres. Mesmo quando se encontrava em clausura foi ajudando sempre a financiar a construção de hospitais, tal como o que existe ainda hoje nas Caldas da Rainha.

Ainda em vida manifestou vontade de ser supultada numa campa rasa no convento da Madre Deus, renunciando às formalidades da realeza. Localiza-se mesmo no acesso da igreja. Da época da rainha existe o lindíssimo claustrim e a Capela D. Leonor, tudo o resto que se visita atualmente foi já realizado posteriormente.

Este convento foi extinto em 1871 com a morte da última freira, alguns anos após a extinção das ordens religiosas portuguesas.

8 – A igreja do convento é um dos melhores exemplos do Barroco em Portugal

A igreja do convento mandada construir pela rainha D. Leonor, é atualmente o espaço que se designa por Sala do Capítulo. Só que na época a água do rio Tejo encontrava-se muito mais perto do Convento e em época de cheias inundava a igreja. Por isso, alguns anos mais tarde quando se realizou uma campanha de ampliação do convento, decidiu-se construir uma igreja num plano mais alto, para evitar a entrada de água.

Esta igreja que se encontra mais elevada é um templo religioso barroco lindíssimo com talha dourada e magníficos azulejos. A disposição que estes dois elementos têm um sobre o outro é que deu origem à conhecida expressão portuguesa “Ouro sobre azul”.

Igreja do Convento da Madre de Deus (Museu Nacional do Azulejo)
Igreja do Convento da Madre de Deus
Igreja do Convento da Madre de Deus (Museu Nacional do Azulejo)
Igreja do Convento da Madre de Deus

Na minha opinião a visita a esta igreja é por si só uma razão fortíssima para também visitar o Museu. É uma ode à arquitetura e história portuguesas. Para a visitar tem de pagar a entrada no museu, não é possível entrar de uma outra forma.

No piso superior é de destaque o presépio em terracota e o coro, onde se encontram as várias relíquias que existiam no convento. A existência de partes de um santo (relíquias) eram extremamente importantes pois era através da sua quantidade que se percebia a importância de um convento. Este era financiado pela família real, por isso tinha imensas que se conservaram até aos dias de hoje.

O coro encontra-se no mesmo estilo da igreja, também com talha dourada. Neste espaço existe uma janela, que era o local onde as freiras assistiam às celebrações, sem serem vistas por quem frequentava a igreja. Terá de imaginar no lugar do vidro uma grade com umas aberturas muito pequeninas por onde elas espreitavam.

9 – A zona mais antiga do convento é o claustrim

Quando visitamos agora o convento verificamos que existe o claustro e um outro mais pequeno, com o nome de claustrim. E esta é a zona mais antiga de todo o edifício e na minha opinião, uma das mais interessantes.

Claustrim (Museu Nacional do Azulejo)
Claustrim

Os azulejos que aqui se encontram são lindissimos, o que torna este local um dos pontos altos da visita ao convento (e ao Museu), na minha opinião.

10 – O convento tornou-se um museu

O convento da Madre de Deus foi extinto em 1871, alguns anos após a extinção das ordens religiosas portuguesas. No ano seguinte encerrou de forma definitiva.

Já no século XX o edifício recebeu alguns melhoramentos para receber uma exposição sobre a rainha D. Leonor, comemorando assim os 500 anos do seu nascimento. Foi neste contexto que a coleção de azulejos que se encontravam no Museu Nacional de Arte Antiga foi transferida para aqui, surgindo desta forma o caminho para a criação do Museu do Azulejo. No ano de 1980 foi elevado à categoria de Museu Nacional.

 

Carimbo #3 do meu Lisboa Passport! Desafio cumprido 😉

Lisboa Passport com o carimbo do Museu Nacional do Azulejo
Lisboa Passport com o carimbo do Museu Nacional do Azulejo

Não se esqueça de levar o Lisboa Passport e carimbar na loja, que fica no final da visita! Desde que tenho este passaporte que decidi visitar uma vez por mês uma das atrações de Lisboa e escrever sobre elas. O Museu Nacional do Azulejo foi o meu 3º carimbo!

 



Guia do viajante

Quando ir: Entre junho e setembro para temperaturas mais amenas.

Documentos: Para entrar em Portugal, pode precisar de um passaporte e/ou visto, dependendo do seu país em que vive. Cidadãos da Comunidade Europeia não precisam de visto para entrar em Portugal. Os passaportes devem ser válidos até 6 meses (dependendo da sua nacionalidade) e são exigidos para todos, exceto pelos nacionais da União Européia e nacionais da Islândia, Liechtenstein, Malta, Noruega e Suíça, portadores de carteiras de identidade nacionais válidas. Britânicos, australianos, canadenses, americanos e japoneses precisam de um passaporte válido.

Embora não seja obrigatório ter um bilhete de retorno, é aconselhável ter um, porque, se não o fizer, poderá ter de provar meios suficientes de apoio financeiro para devolver.

Moeda: A moeda local é o euro.

Fuso horário: GMT.

Idioma: Português.

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