O fado

O fado é um estilo musical carregado de sentimento, que vem da alma de quem o canta. É um dos símbolos mais importantes de Portugal e reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

É a canção urbana de Lisboa e algo totalmente obrigatório de conhecer numa visita à cidade. Recomendo por isso visitar o Museu do Fado, a Fundação Casa-Museu Amália Rodrigues e assistir a um espetáculo numa das muitas Casas de Fados espalhadas por Lisboa. Os melhores bairros para encontrar uma casa de fados são Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa.

Eu visitei o Museu do Fado e fui relembrar toda a história deste símbolo nacional. Foi o meu 2º carimbo no Lisboa Passport!

1 – A dança fado no Brasil 

Os registos históricos indicam que existiu uma dança no Brasil, designada por fado. É possível então assumir que a 1ª referência ao fado com o significado de expressão artística (e não de ‘destino’), é de uma dança. Mais tarde é que a dança do fado surgiu em Lisboa.

Sabe-se que o fado era dançado de forma sensual, tal como sugere uma imagem que se encontra no Museu do Fado (ver abaixo) relativa à forma como os portugueses viviam.

Posteriormente surgiu a referência ao fado, como uma canção em Lisboa. Foi há 200 anos atrás que surgiu o fado como a expressão musical que onhecemos.

A.P.D.G.,“Begging for the Festival of N. S. D’Atalaya”. In Sketches of Portuguese Life…, Londres: Geoffrey B. Whitaker, 1826 (réplica) (in Museu do Fado)

A.P.D.G.,“Begging for the Festival of N. S. D’Atalaya”. In Sketches of Portuguese Life…, Londres: Geoffrey B. Whitaker, 1826 (réplica) (in Museu do Fado)

2 – Nasceu no contexto popular de Lisboa

Foi nos momentos de convívio e lazer de Lisboa do século XIX que o fado nasceu, como expressão musical. Nessa altura era cantado de forma totalmente espontânea, na rua e em ambiente frequentado por marujos, prostitutas e outras figuras que eram igualmente consideradas marginais. Os temas cantados eram relacionados com o quotidiano, os acontecimentos do bairro, a saudade e o amor.

A imagem do fadista era por isso a de um rufia, que normalmente tinha uma navalha e várias tatuagens, o que na altura não era bem visto aos olhos da sociedade. Por esta razão, a camada intelectual da sociedade portuguesa repudiava totalmente o fado.

3 – Foi tema do 1º filme sonoro português

Na altura em que o fado era cantado na rua pelos chamados marginais, existia uma prostituta de nome Maria Severa Onofriana, conhecida por Severa. Ela tinha vários amantes conhecidos, sendo um deles o Conde de Vimioso. Ela cantava, tocava e dançava o fado no Bairro Alto e Mouraria e por influência do seu amante ser Conde, também em algumas festas aristocráticas.

A sua história transformou-se num mito da história do fado, por ter conseguido juntar camadas da sociedade tão diferentes em torno do fado e por ter começado a cantar em estilo melancólico acompanhado à guitarra. Por isso, alguns anos depois do seu falecimento, foi escrito um romance chamado “Severa”, de Júlio Dantas. O romance teve tanto êxito que acabou por ser adaptado ao teatro e mais tarde ao cinema, tornando-se o 1º filme sonoro português (realizado por Leitão de Barros). Estreou a 18 de junho de 1931 e permaneceu mais de meio ano em cartaz.

Se tiver curiosidade vá espreitar a casa da Severa, e aproveite para conhecer o típico bairro da Mouraria. É muito perto do Largo Martim Moniz.

Escultura com a guitarra portuguesa, na antiga Rua do Capelão, Lisboa, Portugal
Escultura com a guitarra portuguesa, na antiga Rua do Capelão
Antiga casa da Severa, no Largo com o seu nome, Lisboa, Portugal
Antiga casa da Severa, no Largo com o seu nome

4 – A censura (quase) acabou com o fado de improviso

A censura em Portugal condicionou totalmente a liberdade de expressão das atividades culturais  desenvolvidas. No ano de 1927 esta atividade foi licenciada e regulamentada, passando a existir carteira profisional de fadista e por isso desde então que o fado popular cantado nas ruas foi sendo quase extinto.

Neste contexto surgiu o  ritual de ouvir o fado profissional em casas próprias, designadas de casas de fado. A primeira delas foi o Solar da Alegria, no centro de Lisboa, que abriu as suas portas no ano de 1928. Logo de seguida, nos bairros históricos da cidade, surgiram muitas outras casas onde amadores cantavam o fado vadio. Nestas tascas ainda hoje reina o improviso. Na minha opinião uma visita a um destes locais é imperdível.

Aconselho que vá à noite ao Bairro Alto ou para os lados da Mouraria. Ao percorrer as ruas destes bairros vai ver e ouvir muitas casas de fado. Entre onde sentir que faz mais sentido para si, não ligue a listas… O fado é a alma do povo português, mesmo que não entenda o idioma vai adorar o ambiente e o sentimento.

5 – O fado foi protagonista na revista

Também no contexto da regulamentação de 1927, o fado passou a ser cantado no palco, assumindo protagonismo na revista (um género de teatro ligeiro que surgiu em 1851). Os cartazes e programas dos espetáculos passaram a ser verificados pela Inspeção Geral dos Teatros, de forma a que não fossem abordados temas considerados proibidos pelo governo da época.

Devido a todas as ações que a censura exigia tais como carteira profissional, direitos de autor, obrigatoriedade de visionamento do programa com antecedência e outras, o fado sofreu grandes alterações. O improviso que era uma característica desta expressão musical acabou, tendo-se dado uma profissionalização de interpretes, músicos e compositores.

Todos estes acontecimentos em conjunto com o aparecimento da rádio em 1935 e a televisão em 1957 levaram a que o fado começasse a ser ouvido por um público mais alargado do que inicialmente acontecia. Este género musical chegava agora a todos os portugueses, não apenas aos que viviam na capital portuguesa.

6 – Amália Rodrigues começou a cantar poesia erudita

As primeiras letras do fado eram anónimas, sendo transmitidas oralmente entre fadistas. Mas nos anos 20 surgiram poetas populares que estavam interessados em escrever canções para os fadistas.

Até que uma das mais famosas fadistas portuguesas, Amália Rodrigues, começou a cantar poesia erudita, de autores considerados intocáveis. Cantou Luís de Camões, Alexandre O´Neill, Pedro Homem de Mello e David Mourão Ferreira, entre outros.E isto foi algo que revolucionou totalmente a imagem que todos tinham do fado.

Amália foi também muito importante na internacionalização deste estilo musical. Este foi um passo de extrema importância para que o fado pudesse chegar a mais pessoas, mesmo aquelas que não entendiam o idioma.

Amália Rodrigues, na antiga Rua do Capelão
Amália Rodrigues, na antiga Rua do Capelão

7 – O 25 de abril ameaçou o fado

A revolução de 25 de abril foi um evento em que o regime autoritário de Salazar, foi deposto. Um movimento das forças armadas devolveu finalmente a liberdade à população. Mas nessa altura negra da história de Portugal, em que existia o fascismo, o fado era tido como um dos pilares pelos quais a sociedade se devia reger. Os três pilares de Salazar eram o Futebol, o Fado e Fátima.

Por isso, quando ocorreu a revolução o fado era visto como algo negativo, associado à época que terminava. Na realidade o regime não gostava do fado, mas sim da mensagem de resignação, destino e tradicionalismo que era característico deste estilo musical.

Foi neste contexto que Carlos do Carmo, reconhecido já na altura como um grande fadista, cantou o fado no Festival da Canção e no ano seguinte lançou o conhecido disco “Um homem na cidade”. Este disco inteiramente dedicado a poemas de Ary dos Santos foi marcante na história do fado e uma obra prima do cantor.

O fado ainda tinha espaço, pelo que desde então têm surgido vários fadistas, alguns dos quais reconhecidos internacionalmente.

8 – A palavra fado significa destino

A palavra fado tem origem no latim “fatum” que significa destino. Já nos Lusíadas (epopeia…), Luís de Camões refere várias vezes a palavra fado, ligado a um significado relacionado com a fatalidade, o destino. Não existia qualquer ligação com um género musical.

Apenas no século XIX a palavra fado começou a significar canção popular típica da alma portuguesa.

9 – A guitarra portuguesa já existia antes do fado

A guitarra portuguesa terá aparecido primeiro do que o fado, enquanto expressão musical. Mas foi apenas no fim do século XIX que se terá definido como uma associação ao fado. Assume um papel muito imporatnte, pois é o guitarrista que conduz o fadista, introduzindo o canto e marcando a transição de uma frase local para outra.

Nos últimos anos o acompanhamento do fadista tem mudado um pouco, podendo ter vários instrumentos ou até mesmo uma orquestra.

Há uma particularidade que diferencia de imediato a guitarra portuguesa de Lisboa da de Coimbra. O braço da de Lisboa termina em caracol, o braço da de Coimbra numa lágrima. O fado de Coimbra é cantado apenas por homens, nas praças e ruas da cidade. Sendo uma cidade estudantil, os principais temas são o quotidiano estudantil e a beleza da cidade.

10 – Usa-se xaile preto nas casas de fado

Os códigos de comportamento e apresentação dos “cantadores” e das “cantadeiras” nas casas de fado, foram objeto de um esforço de padronização para dignificação deste género musical. Além dos requisitos de indumentária, em que os homens normalmente usam fato escuro e as mulheres xaile, exige-se silêncio e diminui-se a quantidade de luz, enquanto se canta e toca o fado.

Os fadistas contemporâneos têm o seu próprio estilo, utilizando cores e acessórios com traço muito pessoal. Apesar desta alteração de estilo, o ambiente intimista associado ao fado mantem-se totalmente inalterado.

Fadistas contemporâneos, Lisboa, Portugal
Fadistas contemporâneos (mural do Museu Fado)

Numa visita a Portugal vá ouvir fado. É a canção da alma portuguesa.

Carimbo #2 do meu Lisboa Passport! Desafio cumprido 😉

Lisboa Passport com o carimbo do Museu o Fado, Lisboa, Portugal
Lisboa Passport com o carimbo do Museu o Fado

Não se esqueça de levar o Lisboa Passport e carimbar na loja do Museu! Desde que tenho este passaporte que decidi visitar uma vez por mês uma das atrações de Lisboa e escrever sobre elas. O Museu do Fado foi o 2º carimbo!

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