A ilha das Flores: a história, o que ver, onde dormir

Há uns bons milhões de anos emergiu do oceano Atlântico um pedaço de terra maravilhoso a que alguém muitos anos mais tarde chamaria de Flores. Esta é uma ilha pequena com um total de 143 km2, com um ponto mais elevado da ilha a ter 914 metros (Morro Alto) e que foi classificada na sua totalidade como Reserva da Biosfera. Tem como vizinha a ilha do Corvo que é um pouco mais “recente” e que tem apenas 17 km2.

Estas duas ilhas pertencem ao arquipélago português dos Açores (que é formado no total por nove ilhas) e formam o grupo ocidental. São as ilhas açorianas que estão mais afastadas do continente, mas por outro lado estão relativamente próximas da América, a uma distância de 1930 km da Ilha de Newfoundland, no Canadá. Muitos habitantes nascidos nas Flores dizem com muito orgulho que é aqui, na ilha, que se consegue ver o último por do sol de Portugal…

A história

Estávamos no ano de 1452 e o navegador Diogo de Teive pretendia explorar novas terras, tendo realizado duas viagens. Num expedição foi até à Terra Nova e na outra descobriu as ilhas mais ocidentais do arquipélago dos Açores, que foram chamadas na altura de Santa Iria e São Tomás e posteriormente Flores e Corvo. Mas o navegador não fez valer os seus direitos de descobridor (uma vez que tinha recebido de D. Henrique o monopólio do açúcar), pelo que estas terras foram parar a outras mãos (D. Afonso Duque de Bragança e Duque de Barcelos) e mais tarde herdadas pelo seu filho João de Teive. Este vendeu-as a um fidalgo português chamado Fernão Teles de Meneses e foi já a sua viúva quem as cedeu por sua vez a um flamengo de nome Willem van der Haegen.

Por volta do ano de 1478 este explorador fixou-se na ilha das Flores e iniciou o seu povoamento e a exploração agrícola. Este processo foi continuado por João da Fonseca que já estava interessado na ilha há algum tempo e que a comprou em 1504. Levou com ele vários portugueses de várias regiões do continente, em especial da zona norte, mas também do Alentejo, Ribatejo e da Terceira. A estas famílias foi fornecido um pedaço de terra para cultivar cereais e legumes e foi desta forma que as Flores foram ganhando habitantes.

Nesta altura iam poucas pessoas às Flores, dado a sua localização algo remota, mas por volta do ano de 1587, a ilha começou a sofrer invasões e saques com alguma frequência, por parte de ingleses e franceses. Felizmente hoje em dia pouca resta dessas acções, mesmo o forte de Santo António já não chegou aos nossos dias. Mas para manter viva a memória desses dias ainda existe um largo com o nome dessa estrutura (Largo do Forte de Santo António).

As baleias

A captura das baleias nos Açores já tinha começado muitos anos antes quando no século XIX os norte-americanos (que tinham começado a caçar baleias), chegaram aos Açores para se reabastecerem de comida, água e homens e apanhar cachalotes que andavam por aqui no verão. Nessa época muitos açorianos, florentinos incluídos, juntaram-se à tripulação americana, dedicando-se ao mar e às baleias. Alguns aproveitavam a viagem para os Estados Unidos e emigravam para lá, em busca de novas oportunidades. Para os que se mantinham pelos Açores, a vida também não era nada fácil e o dinheiro que por vezes os homens obtinham no mar com as baleias funcionava como um bom complemento ao que faziam com a sua actividade principal, como por exemplo a agricultura ou o comércio.

Na ilha das Flores existiam sete homens vigias, localizados em pontos estratégicos da costa, que controlavam a partir de uma cabana ou guarita a superfície do oceano do nascer do sol até meio da tarde. Assim que avistavam a presença de um cachalote (o seu bufo) emitiam sinais que começaram por ser de fumo e com panos e depois através de radio telefone.

Os homens (a tripulação) paravam tudo o que estavam a fazer, pegavam nos botes e iam para o mar. Havia alguma competição entre barcos diferentes, pelo que eram utilizados alguns truques entre os vigias e a equipa que ia para o barco, como por exemplo a utilização de um sinal que indicasse uma localização errada. Desta forma os barcos que não sabiam deste sinal já combinado iam para um local sem cachalote e os homens a quem o vigia pretendia dar a informação, iriam para o local certo.

Durante cerca de 150 anos a actividade baleeira foi significativa em todo o arquipélago e teve um grande impacto na própria cultura dos ilhéus, nomeadamente nos florentinos.

O que ver

Cascata do Poço do Bacalhau

É uma queda de água com uma altura impressionante de 90 metros, que logo de seguida forma um grande lago que parece uma piscina. Localiza-se na Fajã Grande, muito perto do mar.

Sete lagoas

Na zona mais central da ilha encontram-se sete lagoas lindíssimas chamadas de Funda, Branca, Seca, Comprida, Rasa, Lomba e a Negra que tem cerca de 111 metros de profundidade.

Poço Ribeira do Ferreiro

O Poço Ribeira do Ferreiro é um local impressionante da ilha das Flores, onde surge à nossa frente uma “parede” onde podemos encontrar entre sete a 20 imponentes cascatas, de acordo com a altura do ano e a pluviosidade. Para lá chegarmos é preciso andar um pouco por um caminho algo irregular, no meio de uma floresta verde, vale bem a pena.

A ilha das Flores: a história, o que ver, onde dormir
Poço Ribeira do Ferreiro

Museu da Fábrica da Baleia do Boqueirão

Na antiga fábrica da Baleia do Boqueirão (encerrou em 1981) encontra-se actualmente um Museu que eterniza uma actividade que esteve presente na vida dos habitantes da ilha durante vários anos. Na minha opinião é um local obrigatório para todos aqueles que pretendem saber mais sobre uma das mais importantes atividades desenvolvidas, que foi a baleação. Quer se goste ou não (da actividade em si) faz parte da cultura dos açorianos e neste caso, dos florentinos.

A ilha das Flores: a história, o que ver, onde dormir
Museu da Fábrica da Baleia do Boqueirão

Rocha dos Bordões

A rocha dos Bordões é um dos monumentos naturais mais conhecidos de todo o arquipélago dos Açores. É algo que eu nunca tinha visto e que chama logo a atenção. Esta rocha tem colunas verticais de basalto (sobretudo de natureza traquibasaltica, uma rocha vulcânica), que estão lado a lado como se tivessem sido esculpidas pela mão do Homem.

A ilha das Flores: a história, o que ver, onde dormir
Rocha dos Bordões

Moinho da Fajãzinha

O Moinho da Fajãzinha foi construído em 1862 e é dos poucos na ilha das Flores que ainda se encontra em funcionamento. É alimentado por um canal (que os locais chamam de veia) que provem de um poço conhecido por Alagoinha ou das Patas.

Tive sorte quando visitei, a moleira abriu a porta deste espaço, falou da sua história e mostrou com orgulho como a água faz funcionar a mó e esmagar o milho que os produtores trazem. É um local muito interessante de conhecer.

Obrigada à Organização do II Encontro de Turismo das Flores e Corvo pelo convite em ser oradora e conhecer a ilha. Como sempre, os meus comentários são independentes.


Informação prática

Como chegar

Para ir às Flores precisamos de ir com tempo. Em primeiro lugar porque merece ser experienciada com calma e em segundo porque nunca se sabe muito bem como será a viagem de ida e de regresso. Eu voei com escala no Faial e sou um exemplo disso. Os ventos estavam fortes a chegar à pista da Horta e por isso só conseguimos aterrar à terceira tentativa! Tal foi o susto que quando cheguei com os pés ao chão meti-me num táxi e só me apeteceu ir beber um gin ao Peter´s para relaxar e brindar à vida 🙂

Cheguei mais tarde à Horta mas felizmente o voo de ligação para as Flores foi tranquilo e acabei por chegar com pouco tempo de atraso. Mas ouvi relatos bem piores do que o meu, com atrasos de um dia e por vezes até mais. Pela localização das ilhas açorianas por vezes faz mau tempo a sério por aqui, com ventos super fortes. Por isso já sabem, venham sempre com alguma margem de manobra.

Como se deslocar

Para nos deslocarmos na ilha das Flores o melhor a fazer na minha opinião é alugar um carro. No aeroporto tem três ou quatro possibilidades, recomendo que compare os preços e as várias possibilidades em Rentalcars. Sempre que alugo é aqui que vejo.

Se não quiser alugar carro e preferir fazer um passeio organizado, recomendo fazê-lo com a equipa da Experience OC. O Armando, o Luís e os restantes elementos são da terra, conhecem-na mesmo bem e disponibilizam passeios em ambas as ilhas do grupo Ocidental, Flores e Corvo.

Onde dormir

Se preferir um hotel terá de ficar no Inatel, localizado no em Santa Cruz, muito perto do aeroporto. Eu jantei lá uma vez e gostei bastante, acredito que será uma boa experiência ficar lá a dormir.

Mas por outro lado se quiser uma experiência autêntica e um enquadramento paisagístico perfeito, recomendo ficar a dormir na Aldeia da Cuada, tal como eu. Este alojamento de turismo rural é uma antiga aldeia constituída por casas de pedra, localizada na Fajã Grande, que foi abandonada nos anos 60 e muito bem recuperada (e preservada) recentemente. Se optar por ficar na Cuada reserve algumas refeições aqui, os produtos são todos biológicos e muito bem confecionados.

Como planear uma viagem de forma independente (tal como eu faço)?
. Reservar os melhores voos no SkyScanner. Aqui consegue encontrar e comprar os melhores voos para o destino escolhido.
. Alugar carro no Rentalcars. Vai encontrar todas os parceiros e fornecedores disponíveis assim como os preços das várias gamas.
. Marcar no Get Your Guide os bilhetes de entrada nos locais que pretende visitar ou nos tours que quer fazer, para evitar filas e tempo perdido.
. Fazer o visto em iVisa.
. Fazer um seguro de viagem na Iati Seguros, para não correr riscos que podem sair caros.
. Utilizar o cartão Revolut, que lhe possibilita fazer pagamentos e levantamentos na moeda do local onde estiver a viajar (e poupar muito dinheiro em taxas).
. Marcar sempre que necessário uma Consulta do Viajante para conhecer os riscos associados à sua viagem e as respectivas medidas de protecção e prevenção.
. Optar sempre que possível por levar menos bagagem possível. Veja as minhas 10 dicas.

 

Sobre a Kate
É uma ex-consultora, blogger de viagens a tempo inteiro, viajante há 20 anos e mãe da Maria há 5. Viaja na maior parte das vezes em família, com a filha desde que era uma bebé de 2 meses e os 3 juntos já fizeram mais de 30 viagens pelo mundo.
Fundou o Wandering Life, organiza @instameets.pt, fundou e é vice-presidente da ABVP – Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, tem ebooks onde ajuda outras famílias a viajar, é fundadora da comunidade Famílias de mochila às costas e da rubrica Conversas em família.

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