10 locais imperdíveis da EN 103 (Norte de Portugal)

A Estrada Nacional (EN) 103 localiza-se no norte de Portugal e tem uma extensão de 252 quilómetros. Começa na aldeia de Neiva, em Viana do Castelo, atravessa todo o Minho e termina em Bragança, já Trás-os-Montes. Vai do litoral minhoto ao interior transmontano, cruzando paisagens de uma beleza ímpar, das melhores que Portugal tem. Eu já não visitava esta zona portuguesa tão a norte há alguns anos e gostei da sensação de deslumbramento que senti ao longo dos quatro dias que andei por aqui, de autocaravana.

É possível fazer a estrada num dia só, aproximadamente em cinco horas, mas a beleza de todo o cenário justifica realizar várias paragens, com tempo, tanto em povoações ao longo da nacional como na sua proximidade. Há muitos locais, mas vou-vos dar 10 que são na minha opinião mesmo imperdíveis.

1 – Rio de Onor

Aproximadamente a 30 minutos de Bragança localiza-se uma pequena mas lindíssima aldeia chamada Rio de Onor. Em 2017 foi classificada como uma das 7 Aldeias Maravilha de Portugal. Está inserida na área Protegida de Montesinho, um dos maiores parques naturais de Portugal (com 75000 hectares) a meia dúzia de passos de Espanha.

Rio de Onor é uma aldeia típica transmontana, no meio da qual passa o rio Onor, que lhe dá nome. Nas ruas existem belas casas de xisto com dois andares, sendo o piso superior destinado à habitação dos proprietários e a inferior aos seus animais. Apesar de o seu enquadramento paisagístico ser belíssimo o que torna esta povoação muito interessante e até particular é o facto de ter tido uma organização comunitária com as suas próprias leis. Aqui todos os habitantes partilhavam terras e gado e ajudavam-se uns aos outros, respeitando as ordens dos mais velhos.

Existiam “conselhos” onde eram debatidos os temas comuns à aldeia, como por exemplo a forma como os campos deviam ser lavrados ou em que dia alguém tinha de acompanhar o rebanho nos pastos. E se alguma família não respeitasse as indicações dadas ficava tudo registado na “Vara da Justiça” e eram aplicados castigos que se traduziam no pagamento de multas (vinho!).

2 – Bragança

Bragança é o coração de Trás-os-Montes, no interior norte de Portugal. Miguel Torga chamou a esta região de Reino Maravilhoso, o que rapidamente se percebe quando a visitamos. Toda esta região é de uma enorme beleza, com as suas montanhas onduladas e vales profundos. Bragança é uma cidade com este enquadramento, montanhas a perder de vista e o Parque Natural de Montesinho mesmo ali ao pé. Perfeita.

Tem um castelo muito bem preservado que se destaca na cidade e uma muralha que delimita ruas empedradas, muito estreitinhas que tornam esta zona uma das mais interessantes de Bragança. Dentro da muralha existe a Domus Municipalis, que já foi uma cisterna e um local de reunião dos “homens bons” do concelho, a igreja de Santa Maria e quase de frente para a Torre de Menagem o Museu Ibérico da Máscara e do Traje que vale bem a visita.

O Museu é uma parceria entre Bragança e Zamora e nele aprendemos mais sobre as tradições relacionadas com as Máscaras do Nordeste Transmontano e da região de Zamora, que têm tanto em comum. Eu desconhecia a existência de tantas festas de inverno um pouco por toda a região transmontana!!! Os caretos de Podence são muito conhecidos, mas apercebi-me de que há muitas, muitas festas mais e que cada uma tem a sua particularidade. As máscaras e os fatos são diferentes em cada aldeia o que revela costumes, tradições e estilos de vida distintos.

Já ouviram falar da Festa dos Rapazes de Varge, da Festa do Menino de Tó ou do Diabo, a Morte e Censura de Bragança? Eu nunca tinha ouvido falar e fiquei mesmo surpreendida com toda esta riqueza cultural do norte do meu país. Se for a Trás-os-Montes algures entre outubro e a altura do carnaval não deixe de consultar o Calendário festivo.

3 – Vinhais (Parque Biológico)

A cerca de 40 minutos de Bragança e em pleno Parque Natural de Montesinho encontra-se a freguesia de Vinhais. É uma região muito ligada à natureza, à agricultura e também à gastronomia, destacando-se nesta última a castanha e o porco Bísaro, responsável pela terra ser conhecida pela Capital do Fumeiro.

Um dos locais mais interessantes de Vinhais é o seu Parque Biológico, na Floresta da Serra da Coroa, fazendo parte integrante do parque natural. É uma zona enorme com cinco hectares onde se podem fazer várias atividades como andar a cavalo ou de burro mirandês, andar a pé ou de bicicleta, tendo sempre como objectivo conhecer o património natural do Parque Natural de Montesinho.

Em comunhão absoluta com a natureza conseguimos aqui observar os animais domésticos da região tais como o veado, o burro mirandês ou algumas aves de rapina. Se quiser ficar mais tempo e optar por dormir no meio deste bosque pode escolher entre os bungalows, as pequenas casinhas de madeira, o parque de campismo ou o parque de autocaravanas que foi o meu caso. Eu gostei imenso de acordar aqui, numa imensa tranquilidade… Sugiro levar o pequeno-almoço para junto da piscina biológica e observar as cobras e as rãs 🙂

Bom dia, acabou de acordar em pleno Parque Natural de Montesinho!

4 – Boticas

Boticas é uma vila serrana que se localiza a meia dúzia de quilómetros da EN 103. O seu ex-libris é o Vinho dos Mortos. Este vinho com um nome bem “interessante” tem origem nas Invasões Francesas, quando os habitantes desta região fizeram tudo ao seu alcance para defender o seu património. Como sabiam que tudo iria ser saqueado resolveram enterrar o vinho que produziam e anos mais tarde quando já era seguro retirá-lo do interior da terra perceberam que a sua qualidade tinha melhorado. O nome está então relacionado com o facto de ter sido enterrado!

Mas há mais em Boticas que a tornam interessante. Um bom exemplo é o Centro de Artes Nadir Afonso, onde se encontra divulgada a vida e obra deste pintor cuja mãe nasceu em Boticas. É um espaço enorme, minimalista e elegante com obras coloridas e modernas. A entrada é gratuita a todos, não há desculpa para não conhecer.

Outro local que vale a pena conhecer é o Boticas Parque, a aproximadamente sete minutos do centro da vila. O parque é uma zona que está em total harmonia com a natureza e onde podemos passear a pé, de bicicleta, de kayak (no rio Beça), fazer pesca desportiva ou observar a fauna e flora. É possível passar lá umas horas ou ficar a dormir numa Natur House, totalmente construídas em materiais não poluentes e muito, muito bonitas. Eu tive oportunidade de visitar uma que estava desocupada e fiquei encantada com a sua elegância e enquadramento. É um sítio onde se passaria bem uns dias com toda a certeza.

5 – Montalegre (Rio Rabagão)

A uns 20 minutos do Boticas Parque chegamos à albufeira do Rio Rabagão que é enorme, sendo a segunda maior de Portugal logo a seguir à do Alqueva. Nas suas margens encontra-se uma pitoresca aldeia chamada Vilarinho de Negrões que é um pedaço de terra rodeado de água em quase toda a sua totalidade. Foi daqui que parti de barco e dei uma volta pelo rio.

Gostei imenso do passeio, mesmo tendo apanhado uma enorme molha, com a água que entrava no barco devido ao vento e às ondas. Mas cheguei à autocaravana, mudei de roupa e ficou o problema resolvido!

10 locais imperdíveis da EN 103 (Norte de Portugal)
Vilarinho de Negrões

6 – Ponte da Barca

Já no Minho a EN 103 e os seus arredores também nos reservam muitas (boas) surpresas. É o caso de Ponte da Barca, uma das mais belas vilas de Portugal, onde nasceu o conhecido navegador português, que foi o primeiro a realizar a circum navegação ao mundo. É um local que merece uma visita prolongada muito pelo seu centro histórico riquíssimo, pela sua bela gastronomia e pelas suas paisagens verdejantes, às portas do Parque Nacional Peneda-Gerês.

Para sentir esta proximidade com a natureza o melhor a fazer é ir até ao rio Lima e entrar na água. Pode optar por andar de kayak ou então experimentar Stand Up Paddle tal como eu. Gostei bastante e a minha filha mais ainda. Foi a primeira vez que fez tal como eu e foi a primeira a colocar-se em pé! Sem medo mãe 🙂

7 – Soajo

Soajo é uma pequena aldeia que se localiza na área montanhosa da região do Minho, em pleno Parque Nacional Peneda-Gerês. Para lá ir visitar é preciso fazer um desvio da EN 103 mas vale a pena cada quilómetro, até porque todo percurso é belíssimo. Pode aproveitar para visitar Terras de Bouro como eu fiz.

A povoação de Soajo é famosa pelo conjunto de 24 espigueiros que se encontram erigidos numa enorme laje granítica, que era usada pelos habitantes da terra de forma comunitária. Os espigueiros são estruturas lindíssimas de granito que servem para guardar o milho e protege-lo das intempéries e dos roedores, estando elevados do chão. Têm uma cruz no alto, que revela a importância que tinham (e ainda têm) e o facto de o povo pedir de alguma forma proteção divina ao milho que lá era guardado e que tanta falta fazia. Foram já classificados como Imóvel de Interesse Público.

8 – Porta do Mezio

A uma distância de 10 minutos de carro do Soajo está a Porta do Mezio, uma das cinco portas de entrada do Parque Nacional Peneda-Gerês, uma belíssima área protegida em Portugal . Esta “porta” é uma área grande, com três hectares, onde os visitantes podem ter todas as informações relativas à descoberta do Parque, por florestas e montes.

Mas a Porta do Mezio não é só isso, é muito mais do que um centro de informação. É também um sítio para crescidos e crianças se divertirem e passarem um bom bocado ao ar livre, em comunhão com a natureza. Por aqui há um parque aventura com arborismo, slide e escalada e vários espaços de lazer tais como parque de merendas, piscina ou aldeia dos pequeninos.

9 – Arcos de Valdevez

A um saltinho da Porta do Mezio encontra-se a belíssima vila de Arcos de Valdevez, enquadrada num cenário verde que o Alto Minho sempre nos reserva. Nesta terra há muitos anos atrás, ocorreu um duelo entre D. Afonso Henriques e o seu primo D. Afonso II de Castela e Leão, que foi muito importante na fundação da nacionalidade e que valeu a Arcos o slogan de “Onde Portugal se fez”. Eu não visitei mas para os lados do rio Vez existe um monumento alusivo a este episódio que não deixa esquecer a importância que Arcos de Valdevez teve no início de Portugal.

Mas perto do rio Vez há muitos mais locais interessantes, além do monumento, tais como igrejas e capelas, um pelourinho, um cruzeiro, a antiga ponte da vila e várias casas senhoriais. Um pouco mais longe do centro vale a pena conhecer o Mosteiro de Miranda e de Ázere ou o Castelo Românico de Santa Cruz por exemplo.

10 – Ponte de Lima

Ponte de Lima é outra bela vila portuguesa, que dista pouco mais de 20 quilómetros de Arcos de Valdevez. É também atravessada por um rio, aqui o Lima (em Arcos é o Vez) e possui igualmente um cenário verde belíssimo. O seu centro tem nada mais nada menos do que 50 monumentos classificados, sendo alguns Monumentos Nacionais, outros Monumentos e Imóveis de Interesse Público e outros ainda de Interesse Municipal. Por tudo isto talvez já seja possível imaginar a riqueza cultural e histórica de Ponte de Lima.

Contudo é junto ao seu rio que a sua beleza atinge um outro nível, na minha opinião. Eu gosto de água e é sempre para junto dela que eu gosto de ir. Fiz por isso um percurso pedestre em plena comunhão com a natureza em ambos os lados do rio Lima que adorei e que recomendo a todos que visitem esta vila. Além de andar a pé há também outras formas de tomar contacto com o rio, como por exemplo fazer passeio de kayak, gaivota ou numa réplica do tradicional barco “água arriba” que antigamente era responsável pelo transporte de pessoas, animais e mercadorias pelo rio acima e abaixo.

Se tiver com algum tempo não perca uma visita ao Paço de Calheiros, que é um antigo solar localizado muito perto do centro da vila. Eu estive lá, fui recebida pelo Conde de Calheiros, conheci a vcasa e tive a impressão de que estava num palácio habitado!!!

Um muito obrigada ao Turismo de Porto e do Norte que foi responsável pela organização desta blog trip de 4 dias pela Estrada Nacional 103. Como sempre, os meus comentários são independentes.


Informação prática

Como chegar e se deslocar

Para percorrer a EN 103 entre Neiva, em Viana do Castelo e Bragança vai precisar de transporte próprio. Esta estrada localiza-se na região mais a norte do país, pelo que se pretender começar mais junto à costa (em Neiva) vai precisar de cerca de meia hora a partir do Porto, 3h30 de Lisboa e 5h30 de Faro.

Se precisar de alugar carro compare os preços e as várias possibilidades em Rentalcars. Sempre que alugo é aqui que vejo. Eu fiz todo o percurso com a minha autocaravana e gostei bastante da experiência.

Onde dormir

Eu fiz todo o percurso na EN 103 com a autocaravana, mas acabei por dormir as três noites em quartos de hotel. O objectivo aqui era conhecer os estabelecimentos disponíveis ao longo desta estrada. Mas quem quiser dormir na autocaravana tem imensos espaços disponíveis pelo que fui vetificando.

Dormi nos seguintes locais, que recomendo:

Onde comer

Ao longo dos quatro dias de passeio pela EN 103 comi sempre bem. Os pratos estavam muito bem confeccionados e a quantidade era substancial! É impossível sair desta região do MInho e Trás-os-Montes com fome 🙂

Jantei no restaurante Comercial em Vinhais, no Assador Barrosão em Venda Nova, no Vai à Fava em Ponte da Barca (que adorei), no Sabor ao Borralho (Soajo) e no Monte Madalena com uma vista incrível para Ponte de Lima.

Como planear uma viagem de forma independente (tal como eu faço)?
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. Marcar no Get Your Guide os bilhetes de entrada nos locais que pretende visitar ou nos tours que quer fazer, para evitar filas e tempo perdido.
. Fazer o visto em iVisa.
. Fazer um seguro de viagem na Iati Seguros, para não correr riscos que podem sair caros.
. Utilizar o cartão Revolut, que lhe possibilita fazer pagamentos e levantamentos na moeda do local onde estiver a viajar (e poupar muito dinheiro em taxas).
. Marcar sempre que necessário uma Consulta do Viajante para conhecer os riscos associados à sua viagem e as respectivas medidas de protecção e prevenção.
. Optar sempre que possível por levar menos bagagem possível. Veja as minhas 10 dicas.

 

Sobre a Kate
É uma ex-consultora, blogger de viagens a tempo inteiro, viajante há 20 anos e mãe da Maria há 5. Viaja na maior parte das vezes em família, com a filha desde que era uma bebé de 2 meses e os 3 juntos já fizeram mais de 30 viagens pelo mundo.
Fundou o Wandering Life, organiza @instameets.pt, fundou e é vice-presidente da ABVP – Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, tem ebooks onde ajuda outras famílias a viajar, é fundadora da comunidade Famílias de mochila às costas e da rubrica Conversas em família.

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